Durante séculos, a Áustria esteve ocupada a fazer aquilo que os grandes impérios costumam fazer: acumular territórios, títulos, fronteiras e problemas. Sob os Habsburgos, Viena tornou-se o centro de uma das mais poderosas casas dinásticas da Europa, e a monarquia acabou por reunir sob a sua autoridade uma verdadeira coleção de povos, línguas e territórios. O Império Austro-Húngaro chegou a ser uma das grandes potências europeias. Depois veio a Primeira Guerra Mundial, o império desmoronou e, em 1918, a Áustria ficou com um país muito menor e uma pergunta bastante incómoda: o que faz uma antiga potência imperial quando já não tem um império? A resposta austríaca acabaria por ser surpreendentemente elegante: descer montanhas de esquis.
A dinastia dos Habsburgos e a engenharia do Império Austro-Húngaro
A história dos Habsburgos começou muito antes de existir o Império Austro-Húngaro, mas foi sobretudo através de uma mistura bastante eficiente de política, guerras e casamentos que a família conseguiu ampliar o seu poder. A famosa estratégia matrimonial dos Habsburgos — resumida na célebre ideia de que outros povos fariam a guerra enquanto a dinastia tratava de casar — ajudou a colocar membros da família em vários dos grandes tronos europeus. Durante séculos, Viena esteve no centro de uma monarquia que precisava de equilibrar interesses de alemães, húngaros, checos, croatas, eslovenos, polacos, italianos e muitos outros. Era uma espécie de condomínio imperial em que cada vizinho tinha uma língua diferente e, frequentemente, uma opinião muito própria sobre quem deveria mandar no prédio.
No século XIX, o nacionalismo tornou essa engenharia política cada vez mais complicada. Em 1867, a monarquia foi reorganizada como Áustria-Hungria, numa tentativa de acomodar sobretudo o peso político da Hungria. Funcionou durante algum tempo, mas continuou a existir uma enorme tensão entre o centro imperial e os diferentes movimentos nacionais. Em 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono, em Sarajevo, desencadeou a crise que levou à Primeira Guerra Mundial. Quatro anos depois, a velha monarquia estava acabada. Em 12 de novembro de 1918 foi proclamada a república, depois do desmoronamento do Estado dos Habsburgos.
O nascimento da Primeira República e o impacto da anexação nazi
O novo país nasceu, aliás, com uma pequena crise de identidade. A primeira república chamou-se inicialmente “Áustria Alemã” e chegou a declarar-se parte da República Alemã. O Tratado de Saint-Germain, em 1919, proibiu essa união e confirmou a Áustria como Estado independente. De repente, o antigo centro de uma monarquia multinacional tinha-se transformado num pequeno país alpino, privado de boa parte dos territórios que antes administrava. Era uma mudança considerável: de potência europeia para país que precisava de reaprender a existir por conta própria.
E a história ainda não tinha terminado de complicar as coisas. A Primeira República entrou numa espiral de conflitos políticos e dificuldades económicas. Em 1933, o governo de Engelbert Dollfuß eliminou as funções democráticas do Parlamento e estabeleceu um regime autoritário. Em março de 1938, tropas alemãs entraram na Áustria e o país foi anexado pela Alemanha nazi. Seguiram-se perseguições, deportações e assassinatos de judeus e de outros grupos perseguidos pelo regime. A participação e cumplicidade de austríacos nos crimes nazis foi durante décadas uma questão difícil na memória nacional e só mais tarde começou a ser assumida de forma mais explícita.
A Segunda República, a neutralidade e o renascimento nos Alpes
Em 1945, a Áustria voltou a ser um Estado independente e iniciou a Segunda República. O país permaneceu sob ocupação das quatro potências aliadas até 1955, quando recuperou a plena soberania através do Tratado de Estado. Seguiu-se reconstrução económica, estabilidade política e uma transformação profunda da sua imagem internacional. E foi justamente aqui que as montanhas começaram a desempenhar um papel inesperadamente importante.
Porque a Áustria podia ter perdido um império, mas não perdeu os Alpes. E, em vez de tentar recuperar territórios à força, começou a transformar as montanhas numa das suas maiores riquezas. O esqui alpino desenvolveu-se rapidamente no país, com figuras como Hannes Schneider e Toni Seelos a aperfeiçoarem técnicas que ajudaram a transformar o desporto. A primeira escola de esqui de Hannes Schneider foi fundada em St. Anton am Arlberg em 1921, e o método austríaco espalhou-se depois pela Europa, pelos Estados Unidos e até pelo Japão.
Assim, a velha potência encontrou uma nova forma de influência. Já não eram soldados a atravessar fronteiras, eram instrutores de esqui a atravessar continentes. Já não se conquistavam províncias, conquistavam-se pistas. E, em vez de exércitos, havia teleféricos; em vez de tratados diplomáticos, havia reservas de hotel; em vez de imperadores, havia turistas com botas desconfortáveis a tentar manter-se de pé.
A Áustria moderna no cenário internacional e o turismo alpino
Hoje, a Áustria é uma república democrática, membro da União Europeia desde 1995, conhecida pela sua história imperial, pela música, pela arquitetura de Viena e Salzburgo e, naturalmente, pelos Alpes. A antiga monarquia que durante séculos tentou controlar uma boa parte da Europa acabou por descobrir uma solução bastante mais tranquila para a sua vocação internacional: receber o resto do continente nas suas montanhas e cobrar-lhe pelo aluguer dos esquis.
No fundo, a Áustria não deixou de conquistar. Apenas trocou os impérios pelas pistas, os exércitos pelos teleféricos e as fronteiras pela neve. E convenhamos: desta vez, ninguém precisou de declarar guerra para chegar ao topo.

